Novo mapa da leitura no Estado revela que a biblioteca virou ponto de encontro entre o pop e o clássico.
*Por Danielle Domingos
Se você visitasse uma biblioteca pública mineira há 30 anos, provavelmente encontraria silêncio absoluto e estudantes debruçados sobre enciclopédias pesadas. Mas o relatório de 2025 da Rede Integra Geraes mostra que, se a biblioteca fosse um organismo vivo, seu batimento cardíaco estaria acelerado.
No último ano, um levantamento realizado em dez bibliotecas públicas do Estado, apontou que 106.445 livros saíram das prateleiras para as casas dos mineiros. É volume suficiente para empilhar obras até o topo do Pico da Bandeira — e ainda sobraria papel. Entre tantas páginas, o que será que estamos lendo?

A invasão dos mangás
Esqueça a ideia de que o jovem não lê. O grande campeão de 2025 na Biblioteca Pública Estadual, em Belo Horizonte, foi o mangá “Vagabond”, de Takehiko Inoue. A história do samurai Musashi Miyamoto desbancou best-sellers tradicionais e mostra um fenômeno geracional: o leitor atual é visual.
Das dez bibliotecas analisadas, sete apontaram que o público que mais movimenta os balcões é formado por crianças e adolescentes. Em cidades como Uberlândia e Varginha, a “Geração Alpha” (até 12 anos) é a mais assídua. O hit? A série “Diário de um Banana”, que liderou os empréstimos em cinco municípios diferentes.
O fenômeno Carolina Maria de Jesus
Se o mangá domina a capital, o interior de Minas mantém os pés fincados na realidade brasileira. Em São João del-Rei, o título mais procurado foi o visceral “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus.
Os livros mais buscados revelam uma dualidade na preferência dos mineiros: enquanto os jovens buscam a fantasia e a estética oriental, o público adulto está usando a biblioteca como ferramenta de reflexão social e política. É o que explica também o fato curioso de a “Constituição Federal” ter sido um dos itens mais pedidos em Águas Formosas.
Por que lemos o que lemos?
O balanço de 2025 também trouxe “outsiders” de peso. Em Ipatinga e São Sebastião do Paraíso, o russo Fiódor Dostoievski provou que o drama humano é universal: “Crime e Castigo” foi um dos destaques de empréstimo.
Para os especialistas, esse “mix” de leituras — que vai de quadrinhos japoneses a tratados jurídicos e clássicos russos — indica que a biblioteca deixou de ser apenas um local de pesquisa escolar para se tornar um centro de entretenimento e cidadania.
Eliani Gladyr da Silva, coordenadora da Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais, explica que os números revelam muito mais do que volume: “eles mostram a diversidade de leitores e de obras que circulam por aqui. É um equipamento cultural que cumpre um papel estratégico, articulando formação de leitores, valorização do livro e acesso democrático ao conhecimento”.

Os números do pulsar literário:
- BH na liderança: 41.816 empréstimos realizados apenas na Biblioteca Estadual.
- Novos rostos: 2.888 novos sócios só na capital mineira.
- Fábrica de histórias: Em Pirapora, a biblioteca foi além e publicou 6 livros de autores locais através de sua própria editora comunitária.
Ranking dos livros mais emprestados em 2025
1° lugar
Vagabond: a história de Musashi – Takehiko Inoue | 156 empréstimos (Belo Horizonte)
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2° lugar
Quarto de despejo: diário de uma favelada – Carolina Maria de Jesus | 109 empréstimos (São João del-Rei)

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3° lugar
Os bichos são gente boa – Renato Muniz | 90 empréstimos (Uberaba)

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4° lugar
One Piece – Eiichiro Oda | 86 empréstimos (Belo Horizonte)

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5° lugar
Diário de um Banana: as memórias de Greg Heffley – Jeff Kinney | 70 empréstimos (Patos de Minas)

O futuro é coletivo
O dado mais otimista do relatório não está no que já foi lido, mas em quem está chegando. Com mais de seis mil novos cadastros em Minas, o estado prova que, na era das telas e da inteligência artificial, o livro — e o espaço físico da biblioteca — ainda é um ótimo refúgio para quem quer entender o mundo.
Os rankings mostram tendências de leitura, mas o crescimento no número de novos leitores é o dado que mais nos anima. Ele revela que as bibliotecas continuam sendo portas de entrada para o livro, especialmente para crianças e jovens”, afirma Cleide Fernandes, coordenadora do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas e Comunitárias.
Como explica Rosy Mara Oliveira, bibliotecária em São João del-Rei, o aumento na procura por livros infantis “fortalece o vínculo das famílias com a biblioteca e o da biblioteca como espaço de convivência, memória e participação social, em parceria com a comunidade”.
Seja nas colônias de férias em Uberaba ou nos clubes de leitura “Leia Mulheres” em Varginha, a biblioteca mineira em 2025 provou que é um espaço de pertencimento e resistência cultural.

